terça-feira, 5 de julho de 2011
Consea - PI: 4ª Conferência de Segurança Alimentar e Nutriciona...
Consea - PI: 4ª Conferência de Segurança Alimentar e Nutriciona...: " A realização da 4ª Conferência de Segurança Alimentar e Nutricional é uma importante referência no processo de implementação da Política..."
sábado, 16 de abril de 2011
PI - 113 – destino: morte
PI - 113 – destino: morte
Pe. Leonardo de Sales*
Embora as rodovias e estradas sejam essenciais ao atual estágio econômico da sociedade, a realidade da má conservação de algumas vias constitui fator de alto risco para os usuários. Um exemplo é a PI 113, sobretudo, o trecho de dezenove quilômetros, entre as cidades de José de Freitas e Cabeceiras, ligando a capital às cidades do norte do Estado, inclusive para a afamada Cachoeira do Urubu, destino de milhares de piauiense nesta época da Semana Santa, entre os municípios de Batalha e Esperantina.
Em recente matéria veiculada no site “Folha de Batalha”, fiquei indignado com esta situação que já se desenrola há bastante tempo. A matéria em questão suscita uma antiga empresa em nosso Estado a ingerência da gestão estadual no quesito estradas, só para citar uma entre tantas ingerências, as estradas são antigas promessas de campanhas de nossos políticos.Passam anos e anos e nada, se faz.
Assim, nos dar conta a redação do site em matéria que comenta a medida paliativa do DER, numa futura operação tapa buraco, depois da reivindicação do Prefeito da cidade de Barras Chico Marques:
“A obra de recuperação total da PI-113, rodovia que liga Barras a Teresina, foi abandonada pela Construtora Sucesso por falta de pagamento (a própria Construtora divulgou nota na imprensa relatando o motivo do abandono da obra).
Na Assembléia Legislativa do Piauí nenhum deputado abre a boca solicitando ao Governo do Estado a retomada imediata das obras da estrada, embora muitos tenham recebido votos dos batalhenses, barrenses, esperantinenses, luzilandeses...”. (Extrato da matéria publicada no site “Folha de Batalha”, Postada em 09/04/2011 às 03h03min)
Nos últimos dois anos tenho ido no período de férias ao Piauí, exclusivamente à Batalha. No dia 13 de junho de 2009, eu e um amigo mineiro, (Pe. Francisco Arcanjo da Silva) que fomos ordenados padres no mesmo dia, éramos conduzidos por essa mesma estrada, em companhia do Prefeito de Batalha Amaro Melo, que num gesto de nobreza conduzia a mim filho da Terra de São Gonçalo, da capital à Batalha, que no dia seguinte cumpriria o ofício canônico de rezar a minha primeira missa, junto aos amigos e familiares na Matriz de São Gonçalo. A estrada estava em péssimas condições de tráfego, naquela época do ano era o fim do inverno e o Piauí tinha sido devastado por uma grande enchente causando grandes e irreparáveis danos à população. Até ai era compreensível a situação da dita PI-113.
Ano passado em agosto tive a idéia de convidar um grupo de amigos paroquianos do interior de São Paulo, onde eu era Pároco para visitar e conhecer o Piauí, minha querida terra!
De fato, um grupo de nove pessoas, novamente o Pe. Francisco, que me acompanhará em junho de 2009, estava no grupo. Estamos todos no mesmo carro. E para nossa supressa novamente a estrada estava nas mesmas condições, ao ponto de o Pe. Francisco indagar se no Piauí, não tinha governo, eram os últimos meses do governo do Partido dos Trabalhadores, pois já se passara, um ano desde a sua primeira passagem pela PI 113. Uma estrada, sem placas sinalizadoras, animais na pista, buracos que nos confundiam, pois mais se parecia com o Iraque pós-guerra com suas crateras causadas pelas bombas americanas.
Dia 26 de dezembro de 2010, novamente estava eu desta vez como carona com o Pe. Evandro, Pároco de Batalha, que fazia verdadeiros malabarismos ao volante, tentando se desviar dos buracos que insistentemente ainda estavam lá para a minha surpresa, porém, maiores que os vistos em agosto, ao trafegar na mesma PI 113, eu tinha a sensação de que a estrada estava em condições ainda piores que os dois períodos anteriores aqui descritos.
Os conformistas podem dizer por que não seguimos por Campo Maior e evitaria estes constrangimentos. A estes digo: Lembre-se: para fazer a omelete é preciso quebrar os ovos. Mas não se exige sujar as mãos. Ou seja, não podemos ignorar os fatos, com medidas paliativas, que têm sido esta a atitude de muitos que vendem suas consciências e utopias por barganhas políticas.
Nos últimos meses tenho acompanhado os sites de notícias da região norte do Piauí, e a situação da dita estrada, continua a mesma. Diante disso resolvi me manifestar.
Seria tão bom que se as autoridades do norte, sobretudo, Cabeceiras, Barras, Batalha, José de Freitas, Esperantina, Luzilândia, Porto, Nossa Senhora dos Remédios, entres eles políticos, religiosos, juristas, lideranças, empresários, também se incomodassem com essa situação. Assim, como eu que de longe, estou indignado com a falta de respeito do poder público do Estado com esta situação. Em algumas estradas do Japão não há mais sinais de tsumani, e na PI 113 os sinais deles continuam lá há dois anos.
Em 2008, segundo o Ministério da Saúde, acidentes de trânsito ceifaram a vida de 36.666 pessoas – o equivalente a 100 mortes por dia! Nos últimos sete anos as vítimas somam 247.722. No mesmo período morreram, na guerra do Iraque, 62 mil pessoas, quase quatro vezes menos do número de óbitos nas rodovias do Brasil. Diante dessas estatísticas eu pergunto, será que o governo do Piauí quer contribuir ainda mais com estes números escandalosos? A demora em agir em relação à recuperação desses dezenove quilômetros de asfalto parece dizer que sim.
O Brasil é o único país do mundo que premia a obrigação. Acorde-se com um barulho destes: os 2.947 servidores do DNIT ganham um extra para trabalhar em benefício da coletividade. O privilégio, à custa do contribuinte, chama-se Bônus Especial de Desempenho Institucional (Besp) e foi proposto pelo Planalto e aprovado pela Câmara dos Deputados a 28 de outubro de 2009. Neste caso específico da PI 113, entre José de Freitas e Cabeceiras, o que o DNIT, ou o DER fez por essa coletividade que precisa dessa estrada?
A percepção da vida política do Piauí apresenta-se sob contornos essencialmente críticos. Não no sentido de desdenhar, irresponsavelmente, dos acontecimentos que envolvem tais aspectos, mas, em verdade, de se fazer um exercício para encontrar os problemas enfrentados no Estado, e que se transformam em obstáculos para o desenvolvimento de nosso Estado.
A impressão corrente que se tem da Política do Piauí liga-se ao domínio de alguns poucos grupos hegemônicos, que tem em comum o fato de, em geral, erguerem-se tradicionalmente em torno de empreendimentos empresariais e estenderem seus espaços de atuação para o campo político. A ligação entre poder econômico e político parece revelar uma conseqüência natural da mentalidade provinciana e tradicionalista, ao gosto das influências portuguesas, principalmente do período colonial da história do Brasil.
Tal contexto tende a provocar o desprezo do interesse social em benefício dos interesses escuso das pessoas que representam as lideranças políticas, è um problema cuja superação não é instantânea, que exige coragem e união de diversas frentes para expulsar, definitivamente, os resquícios de um perverso “mandonismo local”.
Sem falar no silêncio cúmplice dos meios de comunicação de massa, que por meio de um jornalismo imparcial e quase irresponsável, marcado pela manipulação das informações, a divulgação ou omissão dos fatos tudo isto porque a estética do poder exerce maior fascínio que a ética do serviço.
O ser humano é um bicho singular: horroriza-se com a morte quando ela vem por atacado: torres gêmeas, queda de avião, desabamento, tsunami, atiradores fanáticos... Mostra-se insensível se a Dama da Foice age no varejo, ceifando vidas em número muito superior aos das catástrofes repentinas: trânsito, fome, enfermidades curáveis, assassinatos (cerca de 40 mil/ano no Brasil).
Nossas estradas serão seguras quando se punir o conluio entre serviço público e empresas privadas, e a preservação da vida dos viajantes estiver acima de interesses pecuniários e eleitorais.
Nossas estradas serão seguras quando se punir o conluio entre serviço público e empresas privadas, e a preservação da vida dos viajantes estiver acima de interesses pecuniários e eleitorais.
E peço que nenhum cidadão destes municípios que precisam da PI 113, façam qualquer gesto de agradecimento aos políticos pela medida paliativa, ou seja, pela piçarra colocada nos buracos, se é que colocaram mesmo. Pois, ninguém agradece ao padre por ele rezar, a missa, ele não faz, mais que a obrigação dele. Deixemos para agradecer ao padre quando ele rezar excepcionalmente bem a missa!
Em agosto próximo pretendo ir novamente ao Piauí será que eu terei novamente a supressa de trafegar na PI 113 como está, ou será diferente? È só esperar pra ver! Enquanto, se espera uma solução me despeço assim:
Até a próxima vítima que for assaltada, acidentada, ou que tiver o seu carro quebrado, ou o pneu furado; que não falte a proteção de Deus e a intercessão do patrono dos motoristas, São Cristóvão, a quem trafegar na PI 113, pois parece que quando se trata de estradas no Piauí, temos só a proteção de Deus!Porém, Deus não faz pelos homens nada que eles possam fazer por si mesmos. Ainda mais quando estes homens são políticos!
Pe. Leonardo de Sales é escritor, e batalhense, reside atualmente em São Paulo – SP.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
A especificidade da filosofia...
A especificidade da filosofia
Desidério Murcho
Sob o título "A Especificidade da Filosofia", o programa de Filosofia do 10.º de escolaridade que foi substituído em 2003 apontava quatro propriedades: autonomia, radicalidade, historicidade e universalidade da filosofia. Pretensamente, estas quatro propriedades dariam à filosofia a sua especificidade.
Uma das melhores novidades do novo programa de Filosofia de 2003 é a primeira Unidade, muitíssimo mais bem estruturada do que a do anterior programa. E o melhor de tudo é ter eliminado estas pretensas quatro características ou propriedades da filosofia como marca da sua especificidade. Infelizmente, contudo, alguns manuais escolares insistem nestas propriedades, apesar da sua saudável ausência do novo programa. Dois exemplos disso são os manuais Um Outro Olhar sobre o Mundo (o manual mais adoptado no país), de Maria Antónia Abrunhosa e Miguel Leitão (Edições Asa, 2003) e Filosofia 10, de Carlos Amorim, Isabel Aguiar e Margarida Moreira (Areal Editores, 2003). É assim provável que muitos estudantes sejam obrigados pelos seus professores a decorar quatro características da filosofia, supostamente definidoras da sua especificidade. Acontece que estas características não são nem definidoras da sua especificidade, nem sequer informativas. Nenhum professor deve continuar a leccionar estes conteúdos porque além de cientificamente errados são pedagogicamente desastrosos. O objectivo deste artigo é esclarecer estas afirmações.
Recorde-se que estes conteúdos surgiam logo na primeira Unidade do 10.º ano; supostamente, tratava-se de dar ao estudante de catorze ou quinze anos, acabado de chegar à Filosofia, uma primeira ideia da disciplina. Logo, seja o que for que se diga sobre a filosofia terá de ser informativo: terá de apresentar algumas características ou propriedades da filosofia que sejam informativas para o estudante, dando-lhe uma primeira ideia correcta da filosofia. Evidentemente, uma das preocupações quando se procura fazer este tipo de trabalho é indicar não apenas as características ou propriedades importantes da filosofia, mas também aquelas que distinguem a filosofia das outras disciplinas, como a matemática, a física ou a história. Mas a apresentação tem de se manter a um nível suficientemente intuitivo para ser realmente informativo; caso contrário, o estudante limitar-se-á a decorar umas expressões estranhas, sem que isso o ajude a ter uma compreensão prévia da filosofia — pelo contrário, pode até ser um obstáculo a essa compreensão, dado que o estudante terá tendência para começar a fazer uma representação negativa da filosofia, como algo abstruso que consiste em pôr na ordem certa expressões estranhas que nada querem dizer. E isto é um formalismo incompatível com o melhor ensino da filosofia.
Perguntemo-nos, pois, se as quatro propriedades apontadas pelo antigo programa marcam a especificidade da filosofia. E a resposta é que não marcam, nem tomadas separadamente, nem tomadas conjuntamente. Acresce que diferentes manuais apresentam concepções diferentes e por vezes inconciliáveis dessas propriedades, o que mostra bem que se trata de algo que em vez de esclarecer, obscurece e provoca confusões.
A autonomia da filosofia
Por "autonomia da filosofia" pode entender-se que a filosofia tem sempre a "marca da razão", isto é, que se trata de uma actividade eminentemente racional. Como é evidente, o mesmo se pode dizer da matemática, da física e da história. De modo que, entendida desta maneira, esta propriedade não distingue a filosofia das outras disciplinas — não marca a sua "especificidade".
Outra forma, mais comum, de entender a autonomia da disciplina é dizer que na filosofia cada um pensa por si próprio, ao invés de nos limitarmos a repetir o que os outros filósofos pensaram. Mas isso acontece igualmente nas artes: cada pintor ou cada poeta pensa por si próprio. E o mesmo acontece nas ciências: cada cientista, historiador ou engenheiro pensa por si próprio — se se limitar a repetir o que os outros cientistas dizem, é um mau profissional. De modo que também entendida desta maneira a autonomia da filosofia não é uma característica definidora da filosofia.
Outras vezes entende-se por "autonomia da filosofia" o facto de a filosofia não estar directamente dependente de outras disciplinas. É uma disciplina que tem o seu "terreno próprio", por assim dizer, não se tratando de uma subdisciplina de outra disciplina maior, como a química de algum modo não é autónoma em relação à física. Pode até dizer-se que, historicamente, as diversas disciplinas se foram separando da filosofia, o que deu à filosofia autonomia em relação a elas. Até aqui, a ideia parece interessante. Mas o problema é que há muitas outras disciplinas perfeitamente autónomas além da filosofia, como a física ou a matemática ou a história — e que são autónomas precisamente porque, ao longo da história, se autonomizaram em relação à filosofia. Logo, esta não é uma propriedade que distinga a filosofia de outras disciplinas.
Acresce que a pretensa autonomia é mais enganadora do que reveladora, dado que todas as disciplinas do conhecimento mantêm relações entre si: muitos problemas da física só podem resolver-se com recurso intenso à matemática, a história tanto pode fazer a história dos reis como a história da química, e a literatura contém muitas vezes ideias filosóficas interessantes.
Mais grave ainda é o facto de a suposta autonomia da filosofia acabar por se revelar profundamente enganadora, dado que um dos aspectos centrais da filosofia é o facto de ser nesta disciplina que se reflecte sobre qualquer outra disciplina: é o que se faz em filosofia da ciência, em filosofia da história, em filosofia da literatura, em filosofia da religião. De modo que nos arriscamos a que o estudante fique a pensar, erradamente, que a autonomia da filosofia a coloca num planeta à parte, quando na verdade a filosofia é a disciplina que mais dialoga com todas as outras. E este diálogo implica um conhecimento sólido das outras disciplinas; não se pode fazer filosofia da arte sem um conhecimento sólido da arte, não se pode fazer filosofia da ciência sem um conhecimento sólido da ciência, etc.
Além disso, a filosofia não é autónoma em relação às outras disciplinas noutro sentido ainda: uma teoria filosófica que seja falsificada pela investigação científica, por exemplo, tem de ser abandonada. A filosofia não subsiste num planeta à parte, indiferente aos resultados das outras ciências e artes. Veja-se, por exemplo, o problema da definição de arte, que só se tornou realmente problemático porque a arte evoluiu de tal modo que as definições clássicas de arte foram refutadas pela prática artística.
Em conclusão, esta propriedade da filosofia, que supostamente marcaria a sua especificidade, não só não marca especificidade alguma porque é partilhada por outras disciplinas, como até é uma propriedade "mais ténue" na filosofia, dada a sua relação profunda com as outras disciplinas.
A radicalidade da filosofia
Por "radicalidade da filosofia" entende-se que esta disciplina "vai à raiz" das coisas, isto é, procura fundamentos. Assim, ao passo que um físico procura relacionar as propriedades do espaço com as propriedades do tempo, por exemplo, um filósofo pergunta-se "O que é o tempo?"; ao passo que um matemático procura descobrir teoremas interessantes, um filósofo pergunta-se "O que é um número?".
Esta é a interpretação mais sensata da suposta radicalidade da filosofia, e não é a interpretação que é costume encontrar nos manuais de filosofia. Nestes, o costume é falar-se apenas da imensa profundidade da filosofia, mais profunda do que todas as outras disciplinas, seguindo-se o tipo de encómio descaradamente parcial, em que o autor do manual de filosofia diz repetidamente que a sua disciplina é mesmo o melhor deste mundo e do outro e que sem a luz da filosofia o mundo ficaria nas trevas. A força do encómio é geralmente inversamente proporcional à profundidade e interesse do conteúdo filosófico do que se tem depois para oferecer, como se o elogio da filosofia pudesse de algum modo esconder a ausência de conteúdos interessantes para leccionar. Se escondesse, seria uma aldrabice, mas não esconde e o estudante sai da disciplina a pensar que se trata de um disparate de pessoas vaidosas, convencidas que são o melhor do mundo, sem que contudo consigam mostrar que importância tem afinal a filosofia — afinal, se este palavreado elogioso desaparecesse amanhã, o mundo continuaria igual ao que é hoje, sem que nada de substancial se tivesse perdido na compreensão das coisas.
Contudo, mesmo na interpretação mais sensata, a ideia de que só a filosofia é radical é enganadora. A filosofia é radical no sentido em que procura os fundamentos últimos de muitos aspectos da realidade. Mas a astrofísica também o faz, pois procura os fundamentos últimos dos grandes corpos celestes; e um geómetra que não se preocupe com os fundamentos geométricos do mundo será um estranho geómetra. Por outro lado, nem todas as disciplinas da filosofia procuram os fundamentos últimos. A ética aplicada não procura fundamentos últimos — isso é algo que compete à metaética. E o mesmo se pode dizer de alguns aspectos da filosofia da religião, que procura apenas determinar, por exemplo, se há razões para pensar que Deus existe.
Claro que podemos interpretar a procura de razões como uma procura radical, uma procura de raízes. Mas se o fizermos, todas as disciplinas académicas — da história à física, da economia à engenharia — são radicais, porque em todas estas disciplinas as teorias respectivas têm de ser apoiadas por razões. Só a teologia mística e o pós-modernismo têm o privilégio de se apoiar em absolutamente nenhumas razões por considerar que todas as razões são inúteis.
Logo, a suposta radicalidade da filosofia é enganadora porque muitas outras disciplinas são radicais no sentido mais moderado do termo, e porque muitas áreas da filosofia não são radicais, no sentido mais exigente do termo.
A historicidade da filosofia
É comum entender-se que a historicidade da filosofia consiste no facto de esta disciplina estar presente em todos os tempos históricos. Mas isto é falso em qualquer sentido substancial do termo "filosofia" — a filosofia nasceu na Grécia no séc. V a.C. e antes disso e noutros lugares do globo não houve filosofia, neste sentido do termo. Claro que houve reflexões de carácter mais ou menos filosófico — mas nesse caso também temos de aceitar que houve ciência, religião e artes. Logo, a historicidade da filosofia, entendida neste sentido, não marca a especificidade da filosofia.
Outra interpretação comum da pretensa historicidade da filosofia é a ideia de que toda a filosofia está "historicamente situada". É verdade que a filosofia é feita por seres humanos, e que os seres humanos se deixam influenciar pelo seu tempo histórico, e que procuram até muitas vezes responder aos problemas do seu tempo. A "filosofia está na história", como por vezes se diz. Mas isto dificilmente precisa de ser dito, pois é óbvio e trivial — a filosofia não é feita por deuses exteriores à história. Mas é igualmente trivial e óbvio que nenhuma disciplina é feita por deuses exteriores à história: nem a literatura, nem a matemática, nem a física, nem a economia, nem a própria história. Poderá argumentar-se que a historicidade da filosofia se refere não ao facto trivial e não informativo de a filosofia ser feita na história por seres humanos, mas antes ao facto de as ideias filosóficas reflectirem o seu tempo. Mas também a literatura e a própria história reflectem o seu tempo, aliás como a gastronomia e a música — e é defensável que também a física e a matemática reflectem o seu tempo, precisamente pela mesma razão que a filosofia o faz: são actividades humanas. Num sentido mais forte de "historicidade" poderemos dizer que a física não reflecte o seu tempo histórico; mas nesse sentido mais forte é a literatura e a arte em geral, por exemplo, que estão muito mais enraizadas na história do que a filosofia. Logo, também neste sentido a suposta historicidade da filosofia é enganadora porque num certo sentido todas as disciplinas reflectem o seu tempo histórico e porque num sentido mais forte há outras disciplinas com uma historicidade mais profunda do que a filosofia.
A interpretação mais sensata da "historicidade da filosofia" é a ideia de que a filosofia mantém uma relação especial com a sua história, diferente da relação que outras disciplinas, como a matemática ou a física, mantêm com a sua história. Expliquei essa relação no capítulo "A Tradição Socrática" do livro A Natureza da Filosofia e o Seu Ensino (Plátano). A ideia é que, como muitos dos problemas da filosofia continuam em aberto, as ideias dos grandes filósofos do passado têm ainda hoje um interesse genuinamente filosófico e não meramente histórico. E isto contrasta com outras disciplinas, como a física ou a geometria, cujas teorias do passado têm um interesse meramente histórico. Contudo, isso não acontece com outras disciplinas, como a religião ou as artes, cujas obras do passado têm igualmente interesse intrinsecamente religioso e artístico e não meramente histórico. Logo, mesmo nesta interpretação, a historicidade da filosofia não é uma característica definidora da disciplina.
A universalidade da filosofia
A universalidade da filosofia falha também como característica definidora da disciplina. As artes, as ciências e até as religiões são tão universais, ou tão pretensamente universais, quanto a filosofia. A geometria tanto tem aplicação em Paris como na China, e o mesmo acontece com a física ou a biologia. E uma obra de arte ou uma religião tanto inspira e comove asiáticos como africanos. Logo, a universalidade é uma propriedade da filosofia — mas não é uma propriedade que marque a sua especificidade, dado que todas as outras disciplinas são universais.
Conclusão
Podemos assim concluir que, separadamente, nenhuma das pretensas características definidoras da filosofia é realmente definidora — ou porque se aplicam a muitas outras disciplinas que não a filosofia, ou porque não se aplicam a todas as subdisciplinas da filosofia.
Resta verificar se a conjunção das quatro propriedades não será definidora da filosofia, excluindo outras disciplinas. Mas a resposta é evidentemente negativa. A física e a economia têm, pelas razões apontadas, simultaneamente as propriedades em causa: autonomia, radicalidade, historicidade e universalidade. Logo, mesmo tomadas conjuntamente, nada há nestas propriedades que marque a especificidade da filosofia.
E agora?
No novo programa eliminou-se sensatamente a conversa errada e enganadora da autonomia, radicalidade, historicidade e universalidade da filosofia. Em seu lugar, temos "O Que é a Filosofia? Uma Resposta Inicial" e "Quais São as Questões da Filosofia? Alguns Exemplos", títulos muito mais sensatos do que os do anterior programa. Contudo, como já referimos, alguns autores de manuais insistem na autonomia, radicalidade, historicidade e universalidade da filosofia. Fazem-no evidentemente com a melhor das intenções, julgando que estariam a dar algumas pistas úteis aos estudantes, mostrando como se dá uma resposta inicial à pergunta "O Que é a Filosofia?". Mas dado que as quatro propriedades apontadas são enganadoras e erradas, que outras propriedades poderemos apresentar que sejam informativas para o estudante e cientificamente correctas?
Como co-autor do manual A Arte de Pensar (Didáctica Editora), confrontei-me com este problema. A solução que encontrei terá sem dúvida erros e deverá ser corrigida, mas parece-me à partida melhor do que a pretensa autonomia, radicalidade, historicidade e universalidade da filosofia. Antes de mais, penso que é uma boa ideia abandonar a pretensão de uma definição de filosofia no sentido forte do termo, pelas razões que explico no capítulo "Definição de "Definição"" no livro A Natureza da Filosofia e o Seu Ensino: em muitos casos, uma definição explícita correcta é menos informativa do que uma caracterização ou uma definição implícita. É mais informativo apresentar apenas algumas características importantes para que o estudante comece desde logo a formar uma ideia fiel à realidade do que é a filosofia. Assim, as características que se apresentam no manual A Arte de Pensar, não têm a pretensão de representar a especificidade da filosofia.
Acresce que ao apresentar seja o que for a alguém temos de ser sensíveis ao contexto em que nos encontramos e ao que essa pessoa já sabe ou pensa saber. Assim, ao apresentar algumas características da filosofia ao estudante do 10.º ano é importante ter em conta o tipo de ideias, umas erradas outras não, que o estudante português médio tem, no contexto em que se encontra. Se fizermos isto, poderemos ser menos universalistas, mas seremos sem dúvida mais informativos.
Com estes princípios em mente, estas são as características da filosofia que apresentámos no manual A Arte de Pensar:
- A filosofia é uma actividade crítica;
- O pensamento filosófico é consequente;
- A filosofia é um estudo a priori;
- A filosofia é diferente da história da filosofia.
Mesmo tomadas conjuntamente, estas características não apresentam a especificidade da filosofia, nem pretendem fazê-lo. Qualquer lista de características que procurasse fazer isso não seria útil para o estudante porque não seria realmente informativa. Será ao longo do estudo da filosofia que o estudante, por si mesmo, irá vendo o que faz a especificidade da disciplina. O que é importante nesta fase inicial é dar, como o próprio programa prescreve, "Uma Resposta Inicial".
A nossa resposta começa por explicar que a filosofia é "o lugar crítico da razão", se bem que nunca se use esta expressão pomposa. Procura-se mostrar que o objectivo da filosofia é avaliar criticamente um certo tipo de ideias. É importante explicar este aspecto da filosofia ao estudante porque ele está habituado, em todas as outras disciplinas, a limitar-se a decorar conhecimento "já feito". Em filosofia, o estudante vai ser confrontado com a sua abertura: não há "conhecimento já feito", só há as teorias dos filósofos, que são todas discutíveis, e o objectivo do estudo da filosofia é saber discutir essas ideias, e não saber repeti-las.
Contudo, quando se diz que o objectivo da disciplina é cada qual pensar por si, o estudante tem tendência para entender erradamente que a filosofia é o domínio da arbitrariedade e do "vale tudo". Por isso, é importante sublinhar que o estudante pode afirmar o que quiser, mas tem de fundamentar (isto é, defender com argumentos) tudo que afirmar. A filosofia não é uma colecção de afirmações pomposas e bizarras; a filosofia é a tentativa de fundamentação racional das nossas ideias — e se as nossas ideias não resistem à discussão racional aberta, então temos de mudar de ideias. Este é o papel que desempenha, em grande parte, a ideia de que a filosofia é um pensamento consequente. Dizer "A vida faz sentido porque sim" não é um pensamento filosófico porque não é um pensamento consequente. E dizer "Os animais não têm direitos porque não têm deveres" também não é um pensamento filosófico, porque não é consequente noutro sentido: a consequência óbvia deste pensamento é que também os idosos em coma não têm direitos, o que é falso e por isso contraria a ideia de partida. Em filosofia, somos responsáveis não apenas pelo que dizemos, mas também pela defesa racional do que dizemos e pelas consequências do que dizemos.
Em terceiro lugar, é importante sublinhar o aspecto conceptual ou a priori da filosofia para que o estudante não pense que pode sentar-se à secretária e enfrentar problemas que só podem ser frutuosamente enfrentados recorrendo a informação empírica. A filosofia não deve servir de desculpa para se fazer o que no fundo é má sociologia e má psicologia. Isto é, com o disfarce de estarmos a fazer filosofia, não se pode afirmar, por exemplo, que as pessoas, quando confrontadas com a morte, tendem a fugir ao assunto. Não se pode afirmar isto porque isto é uma afirmação empírica que, por isso, requer provas empíricas (é necessário conceber um inquérito e fazer o tratamento desses dados). A filosofia não é este tipo de especulação empírica preguiçosa. Por outro lado, a maior parte dos problemas da filosofia não requerem qualquer informação empírica, ou requerem pouca informação empírica. Para saber se os animais têm direitos é relevante ter dados biológicos sobre a questão de saber se eles sentem dor — mas esses dados o filósofo vai procurá-los à biologia, dado que isso não é um trabalho da filosofia. O que o filósofo faz é reflectir sobre o significado filosófico desses dados. Para saber se a vida faz sentido não se requer qualquer informação empírica específica, se bem que seja necessário ter um conhecimento sólido, ainda que geral, da ciência contemporânea. A filosofia é uma disciplina conceptual por excelência e tem uma relação especial com a informação empírica e é bom que o estudante tenha desde logo consciência disto.
Finalmente, e em quarto lugar, a filosofia é diferente da história da filosofia, apesar de manter com ela relações importantes. Como se explica no manual, seria absurdo pensar sobre qualquer problema da filosofia ignorando o que tantas pessoas muito inteligentes e sábias pensaram antes sobre o tema; se fizéssemos isso, estaríamos sempre a partir do zero, o que seria estúpido. Mas daí não se segue que a filosofia se reduza a fazer relatórios e interpretações das ideias dos filósofos anteriores a nós. Isso é o que faz a história da filosofia. Em filosofia, esse trabalho é feito com um objectivo: discutir essas ideias, para saber se tais ideias são verdadeiras ou não, quais são os seus pontos fortes e os seus pontos fracos.
Temos assim quatro características importantes da filosofia, que ajudam o estudante a formar uma ideia fiel do trabalho que vai desenvolver ao longo de dois anos. Não se trata de características que pretendam captar a especificidade da filosofia como a conversa da autonomia, radicalidade, etc., mas antes de características importantes da filosofia, que são também importantes para o estudante.
Parece razoável concluir que se deve respeitar o programa oficial e abandonar a conversa vaga da autonomia, radicalidade, historicidade e universalidade. E se quisermos apresentar algumas características informativas, há outras características que não as que constavam do programa anterior. A proposta do manual A Arte de Pensar é uma das possibilidades.
Finalmente, note-se que este tipo de informação preliminar sobre a filosofia não deve ser alvo de avaliação. Não faz sentido avaliar os estudantes sobre algo que tem um objectivo meramente preliminar e informativo — além de ser matéria demasiado vaga. Avaliar os estudantes neste capítulo tem o resultado desastroso de os fazer repetir sem pensar o que deveria ser apenas oferecido ao estudante como auxílio à sua orientação na disciplina. Contudo, faz todo o sentido introduzir neste primeiro capítulo alguma avaliação formativa, até para preparar o estudante para o que depois lhe vai ser exigido de forma mais sistemática.
Agradecimentos: Agradeço a Luís Gonçalves e Aires Almeida as sugestões e críticas que me ajudaram a esclarecer melhor alguns aspectos deste ensaio.
O que é Filosofia e por que vale a pena estudá-la?
O que é Filosofia e por que vale a pena estudá-la
A. C. Ewing
SEÇÃO INTRODUTÓRIA: A ORIGEM DO TERMO FILOSOFIAUma definição precisa do termo "filosofia" é impraticável. Tentar formulá-la poderia, ao menos de início, gerar equívocos. Com alguma espirituosidade, alguém poderia defini-la como "tudo e nada, tudo ou nada...". Melhor dizendo, a filosofia difere das ciências especiais na medida em que procura oferecer uma imagem do pensamento humano - ou mesmo da realidade, até onde se admite que isso possa ser feito -- como um todo. Contudo, na prática, o conteúdo de informação real que a filosofia acrescenta às ciências especiais tende a desvanecer-se até parecer não deixar vestígios. Acreditamos que esse desvanecimento seja enganoso. Mas devemos admitir que até aqui a filosofia não tem conseguido realizar suas grandes pretensões. Tampouco tem logrado êxito em produzir um corpo de conhecimentos consensual comparável ao elaborado pelas diversas ciências. Isso se deve em parte, embora não integralmente, ao fato de que, quando obtemos conhecimento verdadeiro a respeito de determinada questão situamos essa questão como pertencente à ciência e não à filosofia. 0 termo "filósofo" significava originariamente "amante da sabedoria", tendo surgido com a famosa réplica de Pitágoras aos que o chamavam de "sábio". Insistia Pitágoras em que sua sabedoria consistia unicamente em reconhecer sua ignorância, não devendo portanto ser chamado de "sábio", mas apenas de "amante da sabedoria". Nessa acepção, "sabedoria" não se restringia a qualquer dos domínios particulares do pensamento e, de modo similar, "filosofia" era usualmente entendida como incluindo o que hoje denominamos "ciência". Esse uso sobrevive ainda hoje em expressões como "filosofia natural". Na medida em que uma grande produção de conhecimento especializado em um dado campo ia sendo conquistada, o estudo desse campo se desprendia da filosofia, passando a constituir uma disciplina independente. As últimas ciências que assim evoluíram foram a psicologia e a sociologia. Dessa forma, poderíamos falar de uma tendência à contração da esfera da filosofia na própria medida em que o conhecimento se expande. Recusamo-nos a considerar filosóficas as questões cujas respostas podem ser dadas empiricamente. Não desejamos com isso sugerir que a filosofia poderá acabar sendo reduzida ao nada. Os conceitos fundamentais das ciências, da figuração geral da experiência humana e da realidade (na medida em que formamos crenças justificadas a seu respeito) permanecem no âmbito da filosofia, visto que, por sua própria natureza, não podem ser determinados pelos métodos das ciências especiais. É sem dúvida desencorajador que os filósofos não tenham logrado maior concordância com respeito a esses assuntos, mas não devemos concluir que a inexistência de um resultado por todos reconhecido signifique que esforços foram realizados em vão. Dois filósofos que discordem entre si podem estar contribuindo com algo de inestimável valor, embora ambos não estejam em condição de escapar totalmente ao erro: suas abordagens rivais podem ser consideradas mutuamente complementares. O fato de filósofos distintos necessitarem dessa mútua complementação torna evidente que o ato de filosofar não é unicamente um processo individual, mas também um processo que possui uma contrapartida social. Um dos casos em que a divisão do trabalho filosófico se torna bastante proveitosa consiste na circunstância de que pessoas distintas usualmente enfatizam aspectos diferentes de uma mesma questão. Contudo, boa parte da filosofia volta-se mais para o modo pelo qual conhecemos as coisas do que propriamente para as coisas que conhecemos, sendo essa uma segunda razão pela qual a filosofia parece carecer de conteúdo. No entanto, discussões a respeito de um critério definitivo de verdade podem determinar, na medida em que recomendam a aplicação de um dado critério, quais as proposições que na prática deliberamos serem verdadeiras. As discussões filosóficas da teoria do conhecimento têm exercido, ainda que de modo indireto, importante efeito sobre as ciências.
UTILIZAÇÃO DA FILOSOFIA
Há uma questão que muita gente formula de imediato quando ouve falar de filosofia: qual a utilidade da filosofia? Não há certamente expectativa alguma de que ela contribua para a produção de riqueza material. Contudo, a menos que suponhamos que a riqueza material seja a única coisa de valor, a incapacidade da filosofia de promover esse tipo de riqueza não implica que não haja sentido prático em filosofar. Não valorizamos a riqueza material por si própria - aquela pilha de papel que chamamos de dinheiro não é boa por si mesma -, mas por contribuir para nossa felicidade. Não resta dúvida de que uma das mais importantes fontes de felicidade, ao menos para os que podem apreciá-la, consiste na busca da verdade e na contemplação da realidade; eis aí o objetivo do filósofo. Ademais, aqueles que, em nome de um ideal, não classificaram todos os prazeres como idênticos em seu valor, tendo chegado a experimentar o prazer de filosofar, consideraram essa experiência como superior em qualidade a qualquer outra. Visto que a maior parte dos bens que a indústria produz, excetuando os que suprem nossas necessidades básicas, valem apenas como fontes de prazer, torna-se a filosofia perfeitamente apta, no que se refere à utilidade, para competir com a maioria dos produtos industriais, quando poucos são os que podem dedicar-se, em tempo integral à tarefa de filosofar. Mesmo que entendêssemos a filosofia como fonte de um inocente prazer particularmente válido por si próprio (obviamente, não apenas para os filósofos, mas também para todos aqueles a quem eles ensinam e influenciam), não haveria razão para invejar tão pequeno desperdício da força humana dedicada ao filosofar.
Não esgotamos, porém, tudo o que pode ser dito em favor da filosofia. Pois, à parte qualquer valor que lhe pertença intrinsecamente acima de seus efeitos, a filosofia tem exercido, por mais que ignoremos isso, uma admirável influência indireta até mesmo sobre a vida de gente que nunca ouviu falar nela. Indiretamente, tem sido destilada através de sermões, da literatura, dos jornais e da tradição oral, afetando assim toda a perspectiva geral do mundo. Em grande parte, foi através de sua influência que se fez da religião cristã o que ela é hoje. Devemos originalmente a filósofos idéias que desempenharam papel fundamental para o pensamento em geral, mesmo em seu aspecto popular, como, por exemplo, a concepção de que nenhum homem pode ser tratado apenas como um meio ou a de que o estabelecimento de um governo depende do consentimento dos governados. No âmbito da política, a influência das concepções filosóficas tem sido expressiva. Nesse sentido, a Constituição norte-americana é, em grande parte, uma aplicação das idéias do filósofo John Locke; ela apenas substitui o monarca hereditário por um presidente. Similarmente, admite-se que as idéias de Rousseau tenham sido decisivas para a Revolução Francesa de 1789. É inegável que a influência da filosofia sobre a política pode às vezes ser nefasta: os filósofos alemães do século X1X podem ser parcialmente responsabilizados pelo desenvolvimento de um nacionalismo exacerbado que posteriormente veio a assumir formas bastante deturpadas. Todavia, não resta dúvida de que essa responsabilidade tem sido freqüentemente muito exagerada, sendo difícil determiná-la exatamente, o que se deve ao fato de aqueles filósofos terem sido obscuros. Contudo, se uma filosofia de má qualidade pode exercer influência nefasta sobre a política, com as filosofias de boa qualidade pode ocorrer o contrário. Não há meios de impedir tais influências sendo portanto extremamente oportuno que dediquemos especial atenção à filosofia com o intuito de constatar se concepções que exerceram alguma influência foram mais positivas do que nefastas. 0 mundo teria sido poupado de muitos horrores caso os alemães tivessem sido influenciados por uma filosofia melhor que a dos nazistas.
Torna-se, portanto, imperativo abandonar a afirmação de que a filosofia é destituída de valor, mesmo com respeito à riqueza material. Uma boa filosofia, ao influenciar favoravelmente a política, pode gerar uma prosperidade incapaz de ser alcançada sob a égide de uma filosofia inferior. Outrossim, o expressivo desenvolvimento da ciência, com seus conseqüentes benefícios de ordem prática, muito depende de seu background filosófico. Houve mesmo quem tenha chegado a afirmar, a nosso ver exageradamente, que o desenvolvimento da civilização como um todo seria concomitante às mudanças na idéia de causalidade, da concepção mágica de causalidade à científica. De qualquer modo, a idéia de causalidade faz parte do objeto da filosofia. A própria ‘perspectiva científica’, em grande parte, foi introduzida inicialmente pelos filósofos.
Todavia, certamente não estaremos nas melhores condições para fazer um estudo proveitoso da filosofia se a encararmos principalmente como uma via indireta de acesso à riqueza material. A principal contribuição da filosofia consiste no intangível background intelectual do qual muito dependem o clima espiritual e a feição geral de uma civilização. Nesse sentido, ocasionalmente se desenvolvem ambições ainda maiores. Whitehead, um dos mais expressivos e acatados pensadores modernos, descreve os dons da filosofia como "a capacidade de ver e de prever, aliada a um sentido do valor da vida, ou seja, o sentido da importância que anima todo esforço civilizado".1 Acrescenta ainda Whitehead que, "quando uma civilização atinge seu auge sem coordená-lo com uma filosofia de vida, difundem-se por toda a comunidade períodos de decadência e monotonia, seguidos pela estagnação de todos os esforços". Para ele, a filosofia consiste em "uma tentativa de esclarecer as crenças que, em última instância, determinam nossa atenção, a qual integra a base de nosso caráter". De um modo ou de outro, podemos ter como certo que o caráter de uma civilização é enormemente influenciado por sua concepção geral da vida e da realidade. Até pouco tempo, para a maioria das pessoas, essa concepção era proporcionada pelo ensino religioso, mas as próprias concepções religiosas foram muito influenciadas pelo pensamento filosófico. Ademais, a experiência demonstra que as concepções religiosas podem conduzir-nos à loucura, a menos que sejam continuamente submetidas a uma avaliação racional. Os que rejeitam qualquer concepção religiosa devem ter o maior interesse em elaborar uma nova concepção para, se possível, substituir a crença religiosa. E fazê-lo significa engajar-se na filosofia.
Embora não passa substituir a filosofia, a ciência suscita problemas filosóficos. Pois ela não pode dizer-nos que lugar ocupam os fatos com que lida no esquema geral das coisas, não conseguindo nem mesmo esclarecer suas relações com os espíritos que os observam. Nem mesmo pode demonstrar, embora deva admitir, a existência do mundo físico ou a legitimidade do uso dos princípios da indução para prever as prováveis ocorrências futuras ou ultrapassar de alguma forma o que tem sido efetivamente observada. Nenhum laboratório científico pode demonstrar em que sentido os homens têm uma alma, se o universo tem ou não um propósito, se, e em que sentido, somos livres, e assim por diante. Não desejamos com isso sugerir que a filosofia possa resolver esses problemas; no entanto, se ela realmente não puder, nada mais poderá fazê-lo, sendo certamente válido tentar descobrir ao menos se tais problemas podem ser solucionados. Veremos, que a própria ciência pressupõe continuamente conceitos que subsumem os domínios da filosofia E, da mesma forma que nenhuma ciência pode florescer se não admitirmos tacitamente uma resposta para certas questões filosóficas, não podemos fazer uso mental adequado da ciência, com o intuito de implementar nosso desenvolvimento intelectual, sem admitirmos uma visão de mundo mais ou menos coerente. Mesmo as melhores conquistas da ciência moderna não teriam sido alcançadas se os cientistas não tivessem adotado determinadas suposições de grandes e originais filósofos, nas quais basearam todo o seu proceder. A concepção "mecanicista" do universo, que caracterizou a ciência durante os últimos três séculos, é derivada principalmente do filosofia de Descartes. Por ter ocasionado maravilhosos resultados, o esquema mecanicista deve ser, em parte, verdadeiro, ainda que parcialmente inadequado, apressando-se o cientista em buscar no filósofo o necessário auxílio para erigir novo esquema que possa substituir o antigo.
Um segundo serviço inestimável prestada pela filosofia (especialmente pela "filosofia crítica") reside no hábito, por ela estimulado, de promover-se um julgamento imparcial considerando-se todas as facetas de uma questão, e na idéia que ela oferece do que seja a evidência e de que devemos buscar ou esperar de uma prova. Pode ser esse um importante questionamento das inclinações emocionais e das conclusões precipitadas, sendo especialmente necessário, e com freqüência negligenciado, em controvérsias políticas. Se ambos os lados considerassem suas diferenças políticas munidos de espírito filosófico, seria difícil admitir a eventualidade de uma guerra. O sucesso da democracia depende muito da habilidade dos cidadãos em distinguir um bom de um mau argumento, não se deixando enganar por confusões. A filosofia crítica estabelece um padrão ideal para o raciocínio correto e capacita quem a estuda a remanejar argumentos confusos. Talvez seja esse a motivação pela qual Whitehead afirma, na passagem acima citada, que "nenhuma sociedade democrática poderá alcançar êxito sem que a educação geral que a inspire exprima uma perspectiva filosófica".
Na medida em que admitirmos que certa cautela é desejável ao afirmarmos que os homens não deixam de viver de acordo com uma filosofia na qual acreditam, e enquanto atribuirmos a maior parte dos desacertos humanos exatamente à falta desse desejo de sintonia com ideais mais nobres, não poderemos negar a extrema relevância de crenças gerais a respeito da natureza do universo e do bem para a determinação da progresso ou da degeneração da humanidade. Algumas partes da filosofia inegavelmente produzem resultados práticos mais expressivos, mas não devemos por isso incorrer no erro de supor que a aparente inexistência de um suporte de ordem prática para determinado campo de estudo implica que a investigação desse campo seja destituída de sentido prático. Conta-se que um cientista, que costumava jactar-se de desprezar a dimensão prática de toda pesquisa, disse certa vez a respeito de uma: "0 melhor disso tudo é que ela possivelmente não revelará qualquer utilidade prática para quem quer que seja." Todavia, essa linha de pesquisa acabou levando à descoberta da eletricidade. De modo similar, estudos filosóficos por demais acadêmicos e aparentemente destituídos de utilidade prática terminam por exercer profunda influência sobre a visão de mundo, chegando até mesmo a afetar, em última instância, a ética e a religião que adotamos. Pois as diferentes partes da filosofia, os diferentes elementos que compõem nossa visão de mundo, deveriam integrar-se. Tal é pelo menos o objetivo, nem sempre alcançável, de uma boa filosofia. Sendo assim, conceitos à primeira vista muito distanciados de qualquer interesse de ordem prática podem vir a afetar de modo vital outros conceitos que envolvem mais de perto a vida diária.
Podemos compreender agora o motivo pelo qual a filosofia não precisa recear a questão de ter ou não valor prático. Devo ao mesmo tempo dizer que não aprovo de modo algum uma concepção puramente pragmática da filosofia. A filosofia merece ser valorizada por si própria, e não por seus efeitos indiretos de ordem prática. E a melhor maneira de assegurarmos esses bons efeitos práticos é nos dedicarmos à filosofia pela filosofia. Para encontrar a verdade, precisamos buscá-la desinteressadamente. E o fato de a encontrarmos se revelará muito útil do ponto de vista prático. Não obstante, uma preocupação prematura com seus efeitos práticos só dificultará nossa busca do que é de fato verdadeiro. Muito menos podemos fazer desses efeitos práticos o critério de sua verdade. As crenças são úteis porque são verdadeiras, e não verdadeiras porque são úteis.2
PRINCIPAIS DIVISÕES DA FILOSOFIA
A seguinte classificação é usualmente aceita como uma especificação dos diversos assuntos que compõem a filosofia.
(1) Metafísica.3 Essa disciplina é concebida como o estudo da natureza da realidade em seus aspectos mais gerais, na medida em que podemos fazê-lo. Ela lida com questões do seguinte tipo: De que modo a matéria se relaciona com o espírito? Qual dos dois é anterior? São os homens livres? 0 que chamamos de eu (self) é uma substância ou apenas uma seqüência de experiências? É o universo infinito? Deus existe? Até que ponto o universo é uma unidade ou uma diversidade? Até que ponto um sistema é racional?
(2) Recentemente, a filosofia crítica tem sido freqüentemente contraposta à metafísica (que nesse caso é às vezes denominada filosofia especulativa). A filosofia crítica consiste na análise e na crítica dos conceitos pertencentes ao senso comum e às ciências. As ciências pressupõem certos conceitos que não são suscetíveis de investigação por meio de métodos científicos, de modo que passam a integrar o âmbito da filosofia. Nesse sentido, todas as ciências, com exceção da matemática, pressupõem de alguma forma a concepção de lei natural; cabe à filosofia, e não a qualquer das ciências particulares, examinar tal concepção. De modo similar, pressupomos, em nossos diálogos mais comuns e menos filosóficos, conceitos fortemente imbuídos de problemas filosóficos, como matéria, espírito, causa, substância e número. Uma importante tarefa da filosofia consiste exatamente em analisar conceitos desse tipo, precisar o que significam e determinar em que medida sua aplicação ao estilo do senso comum pode ser justificada. A parte da filosofia crítica que trata da investigação da natureza e dos critérios de verdade, assim como da maneira pela qual obtemos conhecimento, é chamada de epistemologia (teoria do conhecimento). Questões específicas desse campo são, entre outras, as seguintes: Como podemos definir a verdade? Qual a distinção entre conhecimento e crença? Podemos estar certos daquilo que sabemos'? Quais as funções relativas do raciocínio, da intuição e da experiência sensorial?
No presente trabalho, iremos ocupar-nos desses dois ramos da filosofia , como constituindo sua parte filosófica mais fundamental e característica. Apontaremos ainda algumas disciplinas suplementares, que possuem certa afinidade com a filosofia na acepção que lhe atribuímos neste livro, embora dela sejam distintas na medida em que são dotadas de relativa autonomia. Esses são os ramos que definiremos a seguir.
FILOSOFIA E DISCIPLINAS AFINS
(1) É difícil separar a lógica da epistemologia. Mesmo assim, ela é normalmente considerada uma disciplina autônoma. Trata-se de um estudo dos diferentes tipos de proposições e de suas relações que justificam uma inferência. Certas partes da lógica revelam acentuada afinidade com a matemática; outras poderiam igualmente ser classificadas como pertencentes à epistemologia.
(2) A ética ou filosofia moral lida com os valores e a problemática do "dever". Ela formula questões como; Qual o bem supremo? Qual a definição de bem? A retidão de um ato depende unicamente de suas conseqüências? Nossos juízos sobre nossos próprios deveres são subjetivos ou objetivos? Qual a função de um ato punitivo? Qual a razão última pela qual não devemos mentir?
(3) A filosofia política consiste na aplicação da filosofia (da ética principalmente) a questões relacionadas com os indivíduos enquanto organizados sob a égide de um Estado. Ela investiga questões do seguinte tipo: Um indivíduo possui direitos que contrariam os interesses do Estado? Há no Estado algo mais além dos indivíduos que o constituem? É a democracia a melhor forma de governo?
(4) A estética consiste na aplicação da filosofia ao exame da arte e da noção de beleza. É típico da estética formular questões do seguinte tipo: A beleza é objetiva ou subjetiva? Qual é a função da arte? Para que aspectos de nossa natureza apelam as diversas formas de beleza?
(5) 0 termo mais geral - teoria do valor - é às vezes utilizado de modo a abranger o estudo dos valores considerados em si mesmos, embora esse ramo possa ser incluído na ética ou na filosofia moral. De qualquer modo, é sempre possível entendermos a noção de valor como uma concepção geral cujas espécies e aplicações particulares são desenvolvidas pelas disciplinas apresentadas nos itens (2), (3) e (4).
A TENTATIVA DE EXCLUIR A METAFISICA EM FACE DA OBJEÇAO DE QUE MESMO A FILOSOFIA CRI'TICA A PRESSUPÕE
Diversas tentativas, algumas das quais discutiremos posteriormente, foram feitas no sentido de excluir a metafísica como injustificável e confinar a filosofia à sua versão crítica e às cinco áreas afins que mencionamos, na medida em que podem ser consideradas uma abordagem ou um estudo crítico dos conceitos da ciência e da vida prática. Tal concepção foi ocasionalmente expressa pela afirmação de que a filosofia consiste, ou deve consistir, na análise das proposições do senso comum. É óbvio que tal afirmação, quando se pretende exclusiva, chega a ser exagerada. Pois, (1) mesmo que uma metafísica legítima e positiva não seja possível, haverá certamente um campo de estudos que se ocupe da refutação dos argumentos falaciosos que supostamente conduziriam a conclusões metafísicas; e tal campo faria obviamente parte da filosofia. (2) A menos que as proposições do senso comum sejam inteiramente falsas, sua análise deverá fornecer-nos uma explicação geral daquela parcela da realidade à qual se referem as proposições, ou seja, proporcionar, de algum modo, parte da explicação geral do real que a metafísica busca oferecer. Nesse sentido, poderíamos dizer que, se existir, o espírito - obviamente ele existe em certo sentido - podemos obter uma metafísica do espírito a partir da análise das proposições do senso comum relativas a nós mesmos, na medida em que tais proposições são verdadeiras - de fato, seria difícil admitir que todas as nossas proposições do senso comum acerca dos seres humanos possam ser de todo falsas. Talvez não seja essa uma metafísica altamente elaborada e de grande alcance, mas de qualquer modo envolverá genuínas proposições metafísicas. Mesmo se afirmarmos que tudo que conhecemos é apenas aparência, a aparência implica uma realidade que aparece e um espírito para o qual ela aparece, e como estes não podem também ser apenas aparências, estaremos ainda admitindo alguma metafísica. Até mesmo behaviorismo é uma metafísica. Não desejamos com isso afirmar a possibilidade atual ou mesmo futura de ,ama metafísica, no sentido de um sistema elaborado que nos propicie grande dose de informação sobre a estrutura geral da realidade e as coisas que mais desejamos conhecer. Isso só pode ser feito ambulando, tentando-se estabelecer e criticar as proposições metafísicas em questão. Não obstante, por mais que sejamos apaixonadamente metafísicos, não passaremos sem a filosofia crítica. A mera tentativa de dispensá-la acarretará a produção de uma metafísica deplorável. Pois, mesmo na metafísica, devemos partir dos conceitos do senso comum e das ciências, já que não dispomos de outros. Ademais, se nossos fundamentos são seguros, devemos cuidadosamente analisá-los e examiná-los. Dessa forma, não podemos separar totalmente a filosofia crítica da metafísica, o que não impede um filósofo de atribuir muito maior importância a um desses elementos.A FILOSOFIA E AS CIÊNCIAS ESPECIAIS
A filosofia difere das ciências especiais com respeito a (1) sua maior generalidade e (2) a seu método. Ela investiga os conceitos que são supostos simultaneamente por inúmeras ciências diferentes, além das questões que não se situam no âmbito das ciências. A ciência compartilha com o senso comum os conceitos que demandam essa investigação filosófica, mas as descobertas de uma ciência particular suscitam ou intensificam alguns problemas especiais, como, por exemplo, n da ``relatividade", que exigem um tratamento filosófico por não poderem ser discutidos adequadamente pela ciência em questão. Alguns pensadores, como Herbert Spencer, conceberam essencialmente a filosofia como uma síntese dos resultados das ciências, mas hoje em dia os filósofos, em geral, não adotam essa concepção. Sem dúvida, se podemos obter resultados filosóficos através de processos de síntese e generalização a partir das descobertas científicas, isso deveria ser feito. Não obstante, o único modo de sabermos se podemos ou não fazê-lo é tentar, e nesse ponto a filosofia não tem alcançado muito progresso nem se revelado muito proveitosa. As grandes filosofias do passado consistiram parcialmente numa investigação dos conceitos fundamentais do pensamento, em tentativas de estabelecer fatos alegadamente distintos daqueles com os quais lidava a ciência mediante métodos bastante diferentes dos científicos. Elas comumente foram influenciadas, mais do que parece, pelo estado contemporâneo da ciência, mas, sem dúvida, seria muito enganador descrevê-las essencialmente como uma síntese dos resultados da ciência. Mesmo filósofos antimetafísicos, como Hume, estiveram mais voltados para os pressupostos da ciência do que para seus resultados.
Tampouco devemos admitir sem reservas, como uma verdade da filosofa, o resultado ou suposição científica válido em sua própria esfera. Sabemos, por exemplo, que a física contemporânea parece ter mostrado que o tempo da física é inseparável do espaço, o que de modo algum nos autoriza a renunciar esse resultado como um princípio filosófico pelo qual o tempo pressuporia o espaço. Pois, pode ocorrer que o resultado em questão seja verdadeiro apenas com relação ao tempo da física, e isso apenas porque o tempo da física é medido em termos de espaço. Por conseguinte, não precisa ser verdadeiro com relação ao tempo da nossa experiência, do qual o tempo da física é uma abstração ou construção. A ciência pode progredir por meio de ficções metodológicas usando termos num sentido invulgar que a filosofia tem de corrigir. 0 termo filosofia da ciência é usualmente aplicado ao ramo da lógica que lida de maneira especializada com os métodos das diversas ciências.
0 MÉTODO DA FILOSOFIA COMPARADO AO MÉTODO CIENTÍFICO
Com respeito a seus métodos, a filosofia difere fundamentalmente das ciências especiais. A não ser quando se aplica a matemática, todas as ciências utilizam processos de generalização empírica, mas a filosofia reserva a tal método um lugar muito modesto. Por outro lado, a tentativa de assimilar a filosofia à matemática, embora muito freqüente, não tem sido bem-sucedida (exceto em determinados ramos da lógica que, pela própria natureza, têm mais afinidade com a matemática do que com os demais setores da filosofia). Particularmente, parece humanamente impossível que os filósofos possam alcançar a certeza e a clareza que caracterizam a matemática. Essa diferença entre os dois campos de estudo pode ser atribuída a várias causas. Em primeiro lugar, não se tem mostrado possível determinar, em filosofia, o significado dos termos do mesmo modo inequívoco que em matemática. Assim sendo, seu significado pode mudar de forma quase imperceptível ao longo de uma argumentação, sendo muito difícil nos certificarmos de que diferentes filósofos utilizam a mesma palavra com o mesmo sentido. Em segundo lugar, somente na matemática encontramos conceitos simples formando a base de inúmeras inferências complexas e, todavia, rigorosamente válidas. Em terceiro lugar, a matemática pura é hipotética, ou seja, não nos pode dizer o que se passa no mundo real, como, por exemplo, o número de coisas situadas num dado lugar, mas apenas o que ocorrerá se isso for verdade, como, por exemplo, que encontraríamos 12 cadeiras numa sala caso lá houvesse 5 + 7 cadeiras. A filosofia, contudo, objetiva ser categórica, isto é, dizer-nos o que de fato ocorre; conseqüentemente, em filosofia, não é apropriado, como geralmente se faz em matemática, fazer deduções apenas a partir de postulados ou definições.
Desse modo, é impossível encontrar uma analogia adequada entre os métodos da filosofia e os de qualquer outra ciência. É igualmente impossível definir de modo preciso qual é o método da filosofia, a não ser limitando de forma grotesca o seu objeto. A filosofia não emprega um método único, mas uma variedade de métodos que diferem de acordo com o objeto ao qual são aplicados. E a tentativa de defini-los de maneira independente de sua aplicação carece de qualquer propósito útil. De fato, isso é muito perigoso. Ne passado, ela freqüentemente conduziu a uma limitação equivocada do escopo da filosofia, excluindo tudo aquilo que não se sujeitasse ao controle de determinado método escolhido como caracteristicamente filosófico. A filosofia requer grande variedade de métodos, pois deve abranger em sua interpretação todo tipo de experiência humana. Não obstante, ela está longe de ser meramente empírica, pois, tanto quanto possível, tem a tarefa de apresentar uma imagem coerente dessas experiências e a partir delas inferir o que pode ser inferido de uma realidade distinta da experiência humana. No que se refere à teoria do conhecimento, deve a filosofia submeter a uma crítica construtiva todas as modalidades de pensamento; contudo, devemos reservar um lugar nessa visão para qualquer modo de pensar que se nos apresente como autojustificado no que há de melhor em nossas reflexões comuns, e não filosóficas, e não rejeitá-lo por diferir dos outros. Os critérios filosóficos são, em linhas gerais, a coerência e a abrangência; o filósofo deve visar a apresentação de uma visão coerente e sistemática da experiência humana e do mundo, tão esclarecedora quanto o permita a natureza dos casos investigados, mas não deve buscar coerência à custa de rejeitar aquilo que de direito é conhecimento real ou crença justificada. Uma séria objeção a uma filosofia consiste na acusação de que ela sustenta algo em que não podemos acreditar na vida cotidiana. Essa objeção poderia ser feita a uma filosofia que logicamente conduzisse, como algumas, à conclusão de que não há um mundo físico, ou de que todas as nossas crenças, científicas ou éticas, carecem de qualquer justificação.
FILOSOFIA E PSICOLOGIA
Há uma ciência que mantém uma relação bastante peculiar com a filosofia: a psicologia. Na prática, é muito mais provável que as teorias psicológicas particulares venham a exercer influência sobre um argumento filosófico ou, uma teoria a respeito do bem e do mal do que as teorias particulares de uma ciência física também válida a relação inversa: exceto com relação às partes que se aproximam da fisiologia, a psicologia, mais do que qualquer setor particular da física, corre o risco de sofrer as conseqüências adversas oriundas de um equívoco de ordem filosófica. É provável que isso aconteça devido ao fato de que apenas recentemente a psicologia emergiu como ciência especial, ao contrário do que ocorreu com as ciências físicas, que há muito já haviam alcançado posição estável, dispondo de bastante tempo para esclarecer seus conceitos básicos de acordo com seus próprios objetivos. Há uma geração, a psicologia era comumente ensinada por filósofos, sendo muito difícil considerá-la uma ciência natural. Por conseguinte, não teve tempo para completar o processo de esclarecimento de seus conceitos fundamentais, necessário para torná-los, se não filosoficamente inquestionáveis, suficientemente claros e úteis para a prática da ciência em questão. 0 estado contemporâneo da física sugere-nos que, quando uma ciência atinge um estágio mais avançado, tende a se deparar mais uma vez com problemas filosóficos. Poderíamos então afirmar que o período no qual uma ciência é independente da filosofia não coincide com seu florescimento ou com os estágios mais avançados de sua trajetória, mas com a longa fase que separa esses dois extremos. Nesse sentido, a filosofia pode contribuir de algum modo para a pendente reconstrução da física.
CETICISMO
Os filósofos têm-se preocupado muito com uma criatura bastante estranha: o cético absoluto. Não obstante, tal pessoa não existe. Se existisse, refutá-lo seria impossível. Similarmente, ele não nos poderia refutar ou afirmar alguma coisa, nem mesmo seu ceticismo, sem contradizer a si mesmo, pois a afirmação de que nenhuma espécie de conhecimento ou crença pode ser justificada é uma crença. Em contrapartida, também não poderíamos provar que o cético está errado, na medida em que toda prova deve admitir algo, ainda que seja alguma premissa, e também as leis da lógica. Se o princípio da não-contradição não é verdadeiro, não podemos refutar algum mediante o argumento de esse alguém está caindo em contradição. Um filósofo não pode, portanto, partir ex nihilo e provar tudo: ele é forçado a fazer certas suposições. Em particular, tem de admitir a verdade das leis fundamentais da lógica, pois de outro modo não seria possível utilizar argumentos de qualquer espécie ou mesmo formular quaisquer enunciados significativos. Entre essas leis da lógica, assinalamos duas que são muito importantes: trata-se dos princípios da não-contradição e do terceiro excluído. Quando aplicados a proposições, o primeiro afirma que uma proposição não pode ser ao mesmo tempo verdadeira e falsa, enquanto o segundo afirma que toda proposição deve ser verdadeira ou falsa. Quando os aplicamos a coisas, o primeiro afirma que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo ou ter e não ter uma qualidade ao mesmo tempo, e o segundo, que uma coisa é ou não é e possui ou não uma qualidade. Concordamos em que esses princípios não soam de modo a entusiasmar ninguém, mas o fato é que todo nosso conhecimento e todo nosso pensamento dependem deles. Se a afirmação de algo não excluísse sua própria contradição, nenhum significado poderia ser atribuído a qualquer asserção e ninguém poderia jamais ser contestado, na medida em que tanto a asserção quanto a refutação poderiam ser corretas. Não podemos negar que, em certos casos, pode ser equivocado atribuir ou não a algo uma qualidade. Seria incorreto dizer que certas pessoas são ou não calvas, não só devido à ausência de uma definição precisa do que seja "calvo" mas também porque, na prática, "calvo" e "não-calvo" significam extremos entre os quais reside uma classe intermediária de casos em que não deveríamos aplicar um desses termos, e sim "parcialmente calvo" ou "mais ou menos calvo".
Não se trata, portanto, de uma pessoa possuir ou não uma qualidade definida. Todas as pessoas são dotadas de um grau particular de calvície, embora o uso dos termos "calvo" e "não-calvo" não deixe claro a que graus de calvície desejamos referir-nos. Tenho a impressão de que as objeções ocasionalmente feitas ao princípio do terceiro excluído se escoimam em desentendimentos desse tipo. De modo similar, o princípio da não-contradição é perfeitamente compatível com o fato de um homem ser bom com relação a certo aspecto e mau com relação a outro, ou mesmo com relação ao mesmo aspecto, ser bom num momento e mau em outro.
A filosofia deve também aceitar a evidência da experiência imediata , embora essa atitude não nos leve tão longe quanto poderíamos esperar. Não dispomos normalmente de experiência imediata sobre outros espíritos, a não ser o nosso, sendo provável que a evidência da experiência imediata não possa dizer-nos que os objetos físicos que parecemos experienciar existem independentemente de nós mesmos. Tornaremos oportunamente a abordar essa questão. Logo constatamos que, não obstante, deveremos fazer novas suposições, se quisermos admitir que conhecemos certas coisas a respeito das quais a vida cotidiana não oferece qualquer suporte para que possamos achar que as conhecemos realmente. Todavia, não devemos concluir que a impossibilidade de se justificar uma crença do senso comum mediante um argumento implica necessariamente sua falsidade. Pode ser que, no nível do senso comum, possuamos um conhecimento genuíno ou uma crença justificada que seja por si próprio estabelecido e que dispense uma justificação filosófica. Não cabe ao filósofo, nesse caso, provar a verdade da crença, pois isso pode ser impossível, mas dar-lhe a melhor explicação possível, examinando acuradamente aquilo que ela envolve, Se usarmos a expressão "crença instintiva" para denominar aquele tipo de crença que tomamos como evidentemente verdadeira antes de qualquer crítica filosófica, e que continua a parecer evidentemente verdadeira em nossa vida cotidiana após a crítica filosófica e a despeito dela, podemos afirmar com Bertrand Russell - que não pode certamente ser acusado de credulidade demasiada - que a única razão para rejeitar uma crença instintiva é o fato de ela colidir com outras crenças instintivas, sendo um dos principais objetivos da filosofia produzir um sistema coerente baseado em nossas crenças instintivas, corrigindo-as o menos possível e só para preservar sua coerência. Nesse sentido, já que a teoria do conhecimento só pode basear-se num estudo das coisas reais que conhecemos e da maneira pela qual as conhecemos, podemos afirmar que o fato de uma teoria filosófica em particular levar à conclusão de que não podemos conhecer certas coisas que evidentemente conhecemos, ou que não podemos justificar certas crenças que obviamente são justificadas, é mais uma objeção à teoria filosófica em questão que ao conhecimento ou às crenças que ela questiona. Por outro lado, seria tolice supor que todas as crenças do senso comum devem ser verdadeiras da maneira como se nos apresentam. Talvez seja função da filosofia aperfeiçoá-las, mas não descartá-las, ou alterá-las de modo a torná-las irreconhecíveis.
FILOSOFIA E SABEDORIA PRÁTICA
A filosofia está associada tanto ao saber teórico quanto à sabedoria prática, à qual aludimos através de expressões do tipo "considerar filosoficamente as coisas". De fato, o sucesso da filosofia teórica não nos oferece qualquer garantia de que seremos filósofos no sentido prático ou de que agiremos e sentiremos de modo correto sempre que nos envolvermos em determinadas situações práticas. Uma das doutrinas favoritas de Sócrates é a de que sempre podemos fazer o bem desde que saibamos o que é o bem; não obstante, isso só é verdade se acrescentamos ao significado do termo "saber" uma adequada nitidez emocional daquilo que sabemos do ponto de vista teórico. 0 fato de sabermos (ou acreditarmos) que fazer algo que desejamos iria acarretar muito mais sofrimento a uma outra pessoa - o Sr. A - do que prazer para nós mesmos, sendo, em conseqüência, não-recomendável, não nos impede, todavia, de praticar tal ação, pois a idéia de causar sofrimento ao Sr. A poderia parecer-nos menos repugnante que a de perdermos aquilo que cobiçamos. Na medida em que é inteiramente impossível a qualquer ser humano sentir o sofrimento alheio com a mesma intensidade que os seus, ocorre sempre a possibilidade de sermos tentados a abandonar nossos deveres, fazendo-se necessário não apenas o conhecimento, mas também o exercício da vontade. Nem somos constituídos de modo a ser sempre fácil, quando somos abandonados à nossa própria moral, nos opormos a um forte desejo, ainda que disso dependa nossa própria felicidade. A filosofia não é garantia de nossa conduta correta ou do perfeito ajustamento de nossas emoções às nossas crenças filosóficas. Nem mesmo do ponto de vista cognitivo é ela capaz de nos dizer o que devemos fazer. Para isso, precisamos, além de princípios filosóficos, não só do conhecimento empírico dos fatos relevantes e da capacidade de prever as prováveis conseqüências, mas também de um insight da situação particular, de maneira a podermos aplicar adequadamente nossos princípios.
Obviamente, não é minha intenção afirmar que a filosofia não contribui para vivermos uma vida exemplar, mas apenas que não pode por si só levar-nos a viver de modo exemplar nem decidir o que seja esse tipo de vida. Insisto, entretanto, em que ela pode, a esse respeito, pelo menos proporcionar valiosas sugestões. E teria muito mais a dizer sobre a conexão entre filosofia e vida exemplar, se incluísse neste livro uma discussão especial da ética, disciplina filosófica que trata do bem e da ação correta. Não obstante, devemos fazer uma distinção entre filosofia teórica, enquanto explicação do que é, e ética filosófica, enquanto explicação do bem e da ação correta.
Não pretendo, ao recorrer a essa ilustração, dar a impressão de ser um hedonista, ou uma pessoa convencida de que o prazer e a dor sejam os únicos fatores relevantes para que se possa julgar uma ação boa ou má. Não sou assim.
A metafísica ou a filosofia crítica nos é de pouca valia para decidirmos o que devemos fazer. Pode levar-nos a conclusões que facilitem encararmos as adversidades de maneira mais serena, mas isso depende da filosofa, não havendo infelizmente acordo universal entre os filósofos quanto à possibilidade de uma concepção otimista do mundo ser justificada filosoficamente. No entanto, devemos seguir a verdade aonde quer que ela nos leve, já que nosso espírito, uma vez desperto, não pode apoiar-se no que carece de justificativa, pois o pensamento não pode ser uma falsidade. Ao mesmo tempo, devemos estudar atentamente e não recusar-nos a ouvir as alegações dos que pensam ter alcançado, mediante recursos que não podem ser incluídos nas categorias usuais do senso comum, verdades inspiradoras e reconfortantes a respeito da realidade. Não devemos tomar como certo que as pretensões de uma cognição genuína em matéria de experiência místico-religiosa, com relação a um diferente aspecto da realidade, devam ser necessariamente descartadas coma carentes de justificativa apenas por não se ajustarem a um materialismo sugerido, mas de modo algum provado e, agora, nem mesmo sustentado pela ciência moderna.
Notas
1 Whitehead, A. N., Adventures of Ideas, pg. 125.2 Nossa crítica à atitude "pragmatista" encontra-se nas pgs. 53-4 e 63-4 adiante.
3 Esse termo tem origem no fato de ter sido discutido na obra de Aristóteles que foi colocada após (meta) seu trabalho sobre a física.
Bibliografia
Whitehead, A. C.: The Function of Reason, Princeton: Princeton University Press.(texto escaneado por Marco Antonio Frangiotti de Ewing, A. C. (1984):
As Questões Fundamentais da Filosofia, Rio de Janeiro: Zahar, pgs. 11-25)
PARA QUE SERVE A FILOSOFIA?
Para que serve a filosofia?
Simon Blackburn
Universidade de Cambridge
Está tudo muito bem, mas será que vale a pena preocuparmo-nos? Qual é o interesse? A reflexão não põe o mundo a funcionar. Não coze o pão nem põe os aviões no ar. Por que razão não havemos de pôr as perguntas reflexivas de lado, e passar às outras coisas? Irei esboçar três tipos de respostas: a elevada, a intermédia e a chã.
A resposta elevada põe em questão a pergunta — uma estratégia filosófica típica, pois implica subir um grau na ordem da reflexão. Que queremos dizer quando perguntamos para que serve? A reflexão não coze o pão, mas também a arquitectura não o faz, nem a música, a arte, a história ou a literatura. Acontece apenas que queremos compreender-nos. Queremos isto pelo seu valor intrínseco, tal como os especialistas em ciências ou matemáticas puras podem querer compreender o princípio do universo, ou a teoria dos conjuntos, pelo seu valor intrínseco, ou como um músico pode querer resolver alguns problemas na harmonia ou no contraponto pelo seu valor intrínseco. São coisas que não se fazem em função de aplicações práticas. Grande parte da vida trata-se de facto de criar gado para poder comprar mais terra, para poder criar mais gado, para poder comprar mais terra… Os momentos em que nos libertamos disso, seja para fazer matemática ou música, para ler Platão ou Eça de Queirós, devem ser acarinhados. São momentos em que desenvolvemos a nossa saúde mental. E a nossa saúde mental é boa em si, como a nossa saúde física. Além disso, há no fim de contas uma recompensa em termos de prazer. Quando temos saúde física, o exercício físico dá-nos prazer, e quando temos saúde mental, o exercício mental dá-nos prazer.
Esta é uma resposta purista. Esta resposta não está errada, mas tem um problema. Acontece que provavelmente só consegue ser atraente para as pessoas que já estão parcialmente convencidas — pessoas que não fizeram a pergunta original num tom de voz muito agressivo.
Por isso, eis uma resposta intermédia. A reflexão é importante porque está na continuidade com a prática. O modo como pensamos sobre o que estamos a fazer afecta o modo como o fazemos, ou até mesmo se o chegamos a fazer; pode conduzir a nossa investigação, ou a nossa atitude relativamente a pessoas que fazem as coisas de modo diferente, ou até toda a nossa vida. Tomemos um exemplo simples: se as nossas reflexões nos levarem a acreditar na vida depois da morte, podemos estar preparados para enfrentar perseguições que não enfrentaríamos se nos convencêssemos — como muitos filósofos — de que a noção não faz sentido. O fatalismo, ou a ideia de que o futuro está determinado, seja o que for que façamos, é uma convicção puramente filosófica — mas é uma convicção que tem o poder de paralisar a acção. Em termos mais políticos, pode também exprimir a aceitação do baixo estatuto social atribuído a alguns segmentos da população, o que pode ser reconfortante para pessoas que, pertencendo aos estatutos mais elevados, encorajam essa aceitação.
Consideremos alguns exemplos mais prevalecentes no Ocidente. Ao reflectir sobre a natureza humana, muitas pessoas pensam que, no fundo, somos inteiramente egoístas. Só procuramos a nossa própria vantagem e nunca nos preocupamos realmente com mais ninguém. Quando parece que nos preocupamos com os outros, isso apenas disfarça a nossa esperança num benefício futuro para nós mesmos. O paradigma principal nas ciências sociais é o homo economicus — o homem económico. O homem económico toma conta de si, numa luta competitiva com os outros. Ora, se as pessoas pensarem que somos todos assim, sempre, as suas relações com os outros transformam-se; pois terão menos confiança nos outros, serão menos cooperativos e mais desconfiados. Isto muda o modo como interagem com os outros, o que acarreta vários custos. Irão descobrir que é difícil, e por vezes impossível, manter actividades cooperativas: podem ficar encurralados naquilo a que o filósofo Thomas Hobbes (1588-1676) chamou «a guerra de todos contra todos». Na vida real, essas pessoas terão um alto custo a pagar, pois estão sempre a pensar que estão a ser enganadas. Se a minha atitude for a de que «um contrato verbal não vale o papel em que está escrito», terei de pagar a advogados para conceber contratos com sanções, e se eu não confiar nos advogados por pensar que eles nada fazem excepto encher-se de dinheiro à custa dos outros, terei de contratar outros advogados para verificarem o trabalho dos primeiros advogados, e assim por diante. Mas tudo isto pode estar baseado num erro filosófico, que consiste em olhar para a motivação humana através de um conjunto de categorias erradas, compreendendo portanto de forma errada a sua natureza. Talvez as pessoas possam importar-se umas com as outras, ou talvez possam pelo menos preocupar-se em cumprir a sua parte e em manter as suas promessas. Se tivermos uma imagem mais optimista, talvez as pessoas possam viver de acordo com essa imagem. Talvez as suas vidas melhorem. Assim, pensar um pouco, encontrar as categorias certas para compreender a motivação humana, é uma tarefa prática importante. Não é algo que esteja confinado ao escritório; pelo contrário, é algo que extravasa o escritório.
Eis um exemplo muito diferente. O astrónomo polaco Nicolau Copérnico (1473-1543) reflectiu sobre como temos conhecimento do movimento. Copérnico percebeu que o modo como compreendemos o movimento depende da nossa perspectiva: isto é, a questão de saber se vemos ou não os objectos em movimento é o resultado do modo como nós próprios estamos colocados e, em particular, resulta da questão de saber se nós próprios estamos ou não em movimento. (Sobretudo em comboios ou nos aeroportos, já tivemos a ilusão de ver o comboio ou avião que está ao lado do nosso a começar a movimentar-se, apercebendo-nos depois, com um sobressalto, que somos nós que estamos em movimento. Mas no tempo de Copérnico havia menos exemplos quotidianos.) Assim, os movimentos aparentes das estrelas e dos planetas poderiam ocorrer não por eles se movimentarem como aparentam, mas por causa do nosso próprio movimento. E afinal as coisas são mesmo assim. Neste caso, a reflexão sobre a natureza do conhecimento — o que os filósofos chamam «investigação epistemológica», do grego episteme, que significa conhecimento — deu origem ao primeiro grande salto da ciência moderna. As reflexões de Einstein sobre o modo como sabemos que dois acontecimentos são simultâneos tinham a mesma estrutura. Einstein percebeu que os resultados das nossas medições iriam depender da direcção em que estamos a viajar relativamente aos acontecimentos que estamos a cronometrar. Isto conduziu à teoria da relatividade especial (e o próprio Einstein reconheceu a importância dos filósofos que o precederam, ao sensibilizarem-no para as complexidades epistemológicas de tais medições).
Como exemplo final, podemos considerar um problema filosófico que muitas pessoas enfrentam quando pensam sobre a mente e o corpo. Muitas pessoas têm em vista uma separação estrita entre a mente, como uma coisa, e o corpo, como uma coisa diferente. Embora isto possa parecer apenas bom senso, pode começar a contaminar a prática de uma maneira bastante insidiosa. Por exemplo, começa a ser difícil ver como estas duas coisas diferentes interagem. Os médicos podem então achar quase inevitável que falhem os tratamentos das condições físicas que respondem a causas mentais ou psicológicas. Podem achar praticamente impossível ver como interferir na mente de alguém pode alguma vez causar mudanças no sistema físico complexo que é o seu corpo. Afinal, a boa ciência diz-nos que é necessário ter causas físicas e químicas para ter efeitos físicos e químicos. Logo, podemos ter uma certeza a priori, uma certeza de poltrona, de que um certo tipo de tratamento (drogas e choques eléctricos, por exemplo) tem de estar «correcto» e que outro tipo de tratamento (como tratar os pacientes humanamente, o aconselhamento e a análise) está «errado»: não é científico, não é sólido, está condenado a falhar. Mas esta certeza não tem como premissa a ciência mas uma falsa filosofia. Uma concepção filosófica melhor da relação entre a mente e o corpo muda essa certeza. Uma concepção melhor deve permitir-nos ver que nada há de surpreendente no facto de haver interacção mente-corpo. Um dos factos mais corriqueiros, por exemplo, é que pensar em algumas coisas (domínio mental) pode fazer corar (domínio físico). Pensar num perigo futuro pode causar todo o tipo de mudanças corporais: o coração bate rapidamente, os punhos fecham-se, as entranhas contraem-se. Por extrapolação, não deve haver qualquer dificuldade em compreender que um estado mental como um alegre optimismo possa afectar um estado físico como o desaparecimento de manchas na pele ou até a remissão de um cancro. O problema de saber se tais coisas acontecem realmente transforma-se numa questão puramente empírica. A própria certeza de poltrona de que tais coisas não poderiam acontecer é afinal algo que depende de uma má compreensão das estruturas do pensamento, ou por outras palavras, má filosofia — e nesse sentido é anti-científica. E perceber isto pode melhorar as atitudes e as práticas médicas.
Assim, a resposta intermédia chama-nos a atenção para o facto de a reflexão estar na continuidade com a prática, podendo a nossa prática ser melhor ou pior de acordo com o valor das nossas reflexões. Um sistema de pensamento é algo em que vivemos, tal como uma casa, e se a nossa casa intelectual estiver fechada e for limitada, precisamos de ver que outras estruturas melhores serão possíveis.
A resposta chã limita-se a sublinhar um pouco este aspecto, não relativamente a belas disciplinas graciosas como a economia e a física, mas relativamente ao piso térreo onde a vida humana é um pouco menos elegante. Uma das séries de sátiras gravadas pelo pintor espanhol Goya tem por título «O Sono da Razão Produz Monstros». Goya pensava que muitas das loucuras da humanidade resultavam do «sono da razão». Há sempre pessoas prontas a dizer-nos o que queremos, a explicar-nos como nos vão dar essas coisas e a mostrar-nos no que devemos acreditar. As convicções são contagiosas, e é possível convencer as pessoas de praticamente tudo. Geralmente, estamos dispostos a pensar que os nossos hábitos, as nossas convicções, a nossa religião e os nossos políticos são melhores do que os deles, ou que os nossos direitos dados por Deus anulam os direitos deles, ou que os nossos interesses exigem ataques defensivos ou dissuasivos contra eles. Em última análise, trata-se de ideias que fazem as pessoas matarem-se umas às outras. É por causa de ideias sobre o que os outros são, ou quem somos, ou o que os nossos interesses ou direitos exigem que fazemos guerras ou oprimimos os outros de consciência tranquila, ou até aceitamos por vezes ser oprimidos. Quando estas convicções implicam o sono da razão, o despertar crítico é o antídoto. A reflexão permite-nos recuar, ver que talvez a nossa perspectiva sobre uma dada situação esteja distorcida ou seja cega, ou pelo menos ver se há argumentos a favor dos nossos hábitos, ou se é tudo meramente subjectivo. Fazer isto bem é pôr em prática mais alguma engenharia conceptual.
A reflexão pode ser encarada como uma coisa perigosa, visto que não podemos saber à partida onde nos conduzirá. Há sempre pensamentos que se opõem à reflexão. As questões filosóficas fazem muitas pessoas sentirem-se desconfortáveis, ou mesmo ultrajadas. Algumas têm medo que as suas ideias possam não resistir tão bem como elas gostariam se começarem a pensar sobre elas. Outras podem querer basear-se nas «políticas da identidade» ou, por outras palavras, no tipo de identificação com uma tradição, grupo ou identidades nacionais ou étnicas particulares que os convida a voltar as costas a estranhos que coloquem em causa os hábitos do grupo. Essas pessoas irão minimizar a crítica: os seus valores são «incomensuráveis» relativamente aos valores dos estranhos. Só os irmãos e irmãs do seu círculo podem compreendê-las. Algumas pessoas gostam de se refugiar num círculo espesso, confortável e tradicional de tradições populares, sem se preocuparem muito com a sua estrutura, as suas origens, ou mesmo com as críticas que possam merecer. A reflexão abre a avenida da crítica, e as tradições populares podem não gostar da crítica. Neste sentido, as ideologias tornam-se círculos fechados, prontas a sentirem-se ultrajadas pelo espírito interrogante.
Nos últimos 2 mil anos, a tradição filosófica tem sido a inimiga deste tipo de complacência confortável. Tem insistido na ideia de que uma vida não examinada não vale a pena ser vivida. Tem insistido no poder da reflexão racional para descobrir o que há de errado nas nossas práticas, e para as substituir por práticas melhores. Tem identificado a auto-reflexão crítica com a liberdade — e a ideia é que só quando nos conseguimos ver a nós mesmos de forma adequada podemos controlar a direcção em que desejamos caminhar. Só quando conseguimos ver a nossa situação de forma estável e a vemos na sua totalidade podemos começar a pensar no que fazer a seu respeito. Marx disse que os filósofos anteriores tinham procurado compreender o mundo, ao passo que o que era preciso era mudá-lo — uma das asserções famosas mais tolas de todos os tempos (e completamente desmentida pela sua própria prática intelectual). Teria sido melhor que Marx tivesse acrescentado que sem compreender o mundo, pouco saberemos em termos de como o mudar — pelo menos para melhor. Rosencranz e Guildenstern admitem não saber tocar gaita-de-foles, mas tentam manipular Hamlet. Quando agimos sem compreensão, o mundo está perfeitamente preparado para dar voz à reacção de Hamlet: «Pensais que eu sou mais fácil de controlar que uma gaita-de-foles?»
Há correntes académicas no nosso tempo que são contra estas ideias. Há pessoas que questionam a própria noção de verdade, de razão, ou a possibilidade da reflexão desapaixonada. Na sua maior parte, fazem má filosofia, muitas vezes sem saberem que é isso que estão a fazer: são engenheiros conceptuais que não conseguem desenhar um plano, quando mais conceber uma estrutura. Voltaremos a esta questão várias vezes ao longo do livro, mas para já posso prometer que este livro está de cara levantada ao lado da tradição e contra qualquer cepticismo moderno, ou pós-moderno, quanto ao valor da reflexão.
O mote completo de Goya para a sua gravura é o seguinte: «A imaginação abandonada pela razão produz monstros impossíveis; unida a ela, é a mãe das artes e a fonte dos seus encantos». É assim que devemos encarar as coisas.
Simon Blackburn
Retirado de Pense: Uma introdução à filosofia, de Simon Blackburn (Lisboa: Gradiva, 2000).
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